Um canal de WhatsApp criado pela equipe de Flávio Bolsonaro (PL) em reação à campanha petista associou falsamente a imagem de uma jovem aparentando usar cocaína à manifestação a favor do presidente Lula (PT) que ocorreu no domingo (11) na avenida Paulista, no centro de São Paulo.
Registrado pela campanha do candidato do PL, o canal “Tropa do Flávio” também divulga frases fora de contexto sobre Lula e áudios de políticos como Nikolas Ferreira (PL-MG) e Gustavo Gayer (PL-GO) pedindo mobilização dos eleitores.
A mesma imagem da jovem aparentando usar cocaína também foi compartilhada no Instagram tanto por Flávio como pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Flávio entrou no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) acusando o canal “Exército do Lula”, administrado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), de disseminar informação falsa e coordenar ataques, o que o parlamentar nega.
Como mostrou a Folha, a mobilização online da campanha petista ligou o alerta na campanha de Flávio, que decidiu reagir. Às 17h desta segunda, o “Exército do Lula” reunia 3,8 milhões de seguidores no WhatsApp, e a “Tropa de Flávio”, 1,4 milhão.
A campanha do candidato do PL afirmou, em nota, que o canal é um instrumento de comunicação e mobilização digital e que está registrado no TSE. “Sua utilização observa a legislação eleitoral vigente e as regras aplicáveis às plataformas digitais e, ao contrário do PT, não propaga fake news”, disse.
A assessoria não respondeu sobre a imagem de uma suposta militante usando drogas. O conteúdo foi divulgado no canal de Flávio numa sequência de postagens críticas ao ato pró-Lula ocorrido neste domingo (11), na avenida Paulista, em São Paulo.
Entre as publicações postadas na “Tropa do Flávio”, estava uma atribuída à página “MSP Brazil”, uma conta com 449 mil seguidores no X. Ela mostrava um vídeo curto de uma jovem de cabelos vermelhos levando um cartão em direção ao nariz. “Militantes usando substâncias supostamente ilícitas em manifestação”, dizia o texto que acompanhava a gravação.
O deputado federal Gustavo Gayer (PL) divulgou um áudio logo depois do vídeo da jovem, falando sobre “depredação” e uso de “substâncias ilícitas” na manifestação.
A Folha checou que uma captura de imagem do mesmo vídeo circula em páginas argentinas nas redes sociais ao menos desde junho. O conteúdo pode ser encontrado em comentários de publicações que tratam da despedida do cantor de rock argentino Indio Solari, que morreu no dia 5 de junho.
A publicação foi apagada depois que a reportagem questionou a campanha de Flávio e Gayer sobre o assunto.
No Instagram, Tarcísio fez contraposição com brasileiros vestidos de verde e amarelo e cenas que classificou como de “vandalismo, depredação e intolerância”. O governador afirmou que a democracia garante o direito de protestar, mas não o de destruir. Questionado pela reportagem, ele não respondeu por que utilizou imagens que não eram do ato na Paulista em vídeo sobre a manifestação e citou os danos e pichações no metrô.
Gayer disse à Folha que “em momento algum é falado que esse vídeo dessa menina é na Paulista”. “Foi apenas uma referência ao que se vê em manifestações da esquerda no mundo todo. Para que fosse considerado fake news teria que haver uma afirmação de onde ou quando. E isso não foi feito”, afirmou.
No áudio publicado por Gayer no canal pró-Flávio, ele afirma que estava analisando as imagens da manifestação na Paulista. “Estou vendo essa depredação, esse vandalismo, usando substâncias ilícitas, acho que esse conteúdo pode ser o ‘Ele Não’ de 2026. Vamos divulgar bastante essa sujeira que eles aprontaram, usem em redes sociais, disparem nos seus grupos de WhatsApp, listas de transmissão”, diz.
O próprio Flávio também compartilhou nas redes sociais um vídeo em que o deputado federal eleito Rony Gabriel (Podemos-RS) faz críticas à manifestação de domingo. Entre as imagens associadas ao protesto, o parlamentar inclui o vídeo da jovem supostamente usando drogas.
“Não, Rony, esse negócio de usar droga foi um ato isolado, com certeza. É, realmente, parece que é um ato isolado que acontece o tempo todo, em cada esquina de cada manifestação do Lula. A menina estava gripada ali, coitada, ainda bem que tinha um lenço pra ajudar ela”, diz Rony, em tom de deboche.
A notícia falsa também foi divulgada nas redes sociais do influenciador Pablo Marçal (PRTB), que se aproximou de Flávio e está publicando uma série de conteúdos a favor dele, e pelo empresário Filipe Sabará (PL), aliado de Flávio. A campanha de Lula entrou com ação no TSE para cobrar que o conteúdo seja excluído da internet e das redes sociais.
O vídeo da jovem já era divulgado no dia anterior à manifestação em uma conta argentina no X que costuma fazer publicações alinhadas à direita. “Obrigado, papais. Foi nisso que votaram para ter gordura barata, futebol grátis e cargos públicos fantasmas”, escreveu. No dia seguinte, outra conta no X, de uma usuária chilena que se descreve como “nacionalista” e “anticomunista”, também publicou a gravação, a associando falsamente a uma manifestação que ocorreu no sábado no Chile a favor da causa palestina.
GUERRA DIGITAL
Além da imagem apagada, a maior parte dos conteúdos postados no canal de Flávio para serem compartilhados por seguidores em grupos de WhatsApp e nas redes sociais traz compilados de frases ditas por Lula fora de contexto, insinuando, por exemplo, que o presidente ataca as religiões ou defende o crime organizado.
Uma das declarações compartilhadas é a que o petista deu no último dia 28, durante um comício em Belém, de que “mulheres aprendem a tomar toque desde pequena”. O presidente falava sobre a relutância dos homens em fazer exame de próstata e explicou, posteriormente, que se referia ao fato de as mulheres serem acostumadas ao exame ginecológico. A fala foi explorada pelos bolsonaristas como um endosso ao crime sexual.
Há também gafes de Lula, como a da cerimônia de sanção da Lei Antifacção, em que ele agradeceu a senadores e deputados pelo “passo importante para que o Brasil seja um dos países mais respeitados do mundo no crime organizado”.
Em um dos posts, é dito que “Lula escolheu o lado do crime”, em uma imagem criada por IA com uma foto do presidente e presidiários. Não há contexto para o ataque, que somou mais de 17 mil compartilhamentos no WhatsApp.
Outros conteúdos, verdadeiros, são divulgados para mobilizar o eleitorado conservador. Uma declaração de Lula em que ele defende o aborto em caso de estupro, como é permitido pela lei brasileira, foi publicada mais de uma vez no canal.
O crescimento da esquerda no campo digital preocupou os bolsonaristas, e Gayer afirmou aos seguidores que o objetivo era superar o número de pessoas do canal do Janones —meta que ainda não foi batida.
Nikolas e Marçal têm divulgado vídeos e áudios incentivando a mobilização digital. “Fala, pessoal, aqui é Nikolas Ferreira, sejam bem-vindos à tropa do Flávio. Eu vou estar conversando com vocês aqui até o final desse segundo turno”, enviou o deputado.
Assim como no canal de Janones, os seguidores recebem orientações específicas e estratégias para ampliar o alcance do conteúdo divulgado. Um dos vídeos com supostos ataques de Lula aos cristãos foi postado com a legenda: “Esse aqui tem que rodar o Brasil”.
Fonte: Folha de São Paulo com colaboração de Nathallia Fonseca, do UOL

