Primeira-dama e secretária de Saúde de cidade baiana é exonerada após compartilhar texto que chama eleitores de Lula de “maconheiros” e “cheiradores”

A primeira-dama de Jequié, Mariana de Freitas Oliva, foi exonerada do cargo de secretária municipal de Saúde da cidade. A decisão foi publicada nesta terça-feira (27) no Diário Oficial do Município do sudoeste baiano e terá validade a partir de 1º de novembro.
A exoneração ocorre um dia após a repercussão de uma publicação compartilhada por Mariana nas redes sociais, na qual eleitores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) eram associados a pessoas que “não querem trabalhar”, “maconheiros” e “cheiradores”.
Após a repercussão do caso, na segunda-feira (26), Mariana pediu desculpas e afirmou que compartilhou a mensagem sem ler atentamente todo o conteúdo. Na ocasião, ela reconheceu que a atitude foi equivocada e assumiu a responsabilidade pela publicação.
Até a publicação desta reportagem, não havia informação de que a exoneração estivesse relacionada à polêmica.
Entenda
A publicação foi compartilhada por Mariana na noite de domingo (25), após o resultado do segundo turno das eleições presidenciais. O texto original foi publicado pelo mentor de posicionamento e imagem João Menna.
A mensagem dizia que a vitória de Lula era comemorada por pessoas que “não produzem, não trabalham e não querem trabalhar”, além de citar “maconheiros”, artistas e estudantes. O texto também classificava o resultado eleitoral como um dia triste para o país.
Mariana é casada com o prefeito de Jequié, Flavinho Santana (União Brasil), que assumiu o comando do município em abril deste ano, após a renúncia de Zé Cocá (PP), que deixou o cargo para disputar a vice-governadoria da Bahia na chapa de ACM Neto (União Brasil).
Flavinho declarou apoio a Flávio Bolsonaro (PL) e, no domingo, publicou nas redes sociais que estava triste com o resultado eleitoral, mas que respeitava a democracia.
Sindicato divulgou nota de repúdio
A publicação de Mariana também provocou reação do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Jequié (SINSERV-Jequié), que divulgou uma nota de repúdio.
A entidade criticou as generalizações contra artistas, estudantes, trabalhadores e pessoas com posicionamentos políticos diferentes dos da primeira-dama. Para o sindicato, a liberdade de expressão não deve ser usada como justificativa para disseminar preconceitos.
“Discordar é legítimo. Desrespeitar não pode ser naturalizado”, afirmou a entidade.
A Prefeitura de Jequié havia informado que não emitiria uma nota institucional sobre a publicação, por ela não ter sido feita nos canais oficiais de comunicação do município.
Veja o que disse Mariana
Em nota divulgada na segunda-feira (26), Mariana pediu desculpas pelo compartilhamento da mensagem e afirmou que não teve a intenção de magoar ou desrespeitar ninguém.
“Reconheço que foi uma atitude equivocada e assumo a responsabilidade pelo ocorrido”, declarou.
Ela também afirmou que o episódio deveria servir como aprendizado e defendeu mais atenção, empatia e respeito ao próximo.
Confira nota da primeira-dama na íntegra:
“Venho, com humildade e o coração sincero, pedir desculpas por ter compartilhado uma mensagem sem antes ler atentamente todo o seu conteúdo. Reconheço que foi uma atitude equivocada e assumo a responsabilidade pelo ocorrido.
Jamais tive a intenção de magoar, constranger ou desrespeitar quem quer que seja. Entendo, porém, que nossas atitudes podem tocar as pessoas de maneiras que nem sempre imaginamos e que reconhecer um erro, ouvir e pedir desculpas também são gestos de respeito e humanidade.
Reafirmo meu carinho e respeito por todos e lamento sinceramente pelo ocorrido. Que possamos transformar esse momento em aprendizado, seguindo em frente com mais atenção, empatia e respeito ao próximo”.
Confira a nota de repúdio do SINSERV:
“Contra declarações preconceituosas e ofensivas à classe artística, aos estudantes, aos trabalhadores e ao povo brasileiro, feitas pela Primeira dama do município de Jequié, Mariana Freitas Oliva
O SINSERV vem a público manifestar total repúdio às declarações divulgadas nas redes sociais pelo perfil da Primeira dama do Município de Jequié Mariana Freitas Oliva, nas quais são feitas generalizações ofensivas e desrespeitosas contra artistas, estudantes e cidadãos brasileiros que possuem posicionamentos políticos e ideológicos diferentes dos seus.
Ao afirmar que determinadas pessoas “não produzem, não trabalham e não querem trabalhar”, associando artistas , estudantes e ao povo em geral a comportamentos depreciativos, a publicação ultrapassa os limites do debate político respeitoso e reproduz estereótipos preconceituosos que desqualificam segmentos fundamentais para o desenvolvimento social, cultural, científico e econômico do país.
Os artistas brasileiros são trabalhadores que produzem conhecimento, cultura, entretenimento, identidade e riqueza. São profissionais que movimentam uma extensa cadeia produtiva, geram empregos, contribuem para a economia e preservam a memória e a diversidade cultural do nosso povo.
Da mesma forma, os estudantes não podem ser reduzidos a caricaturas ideológicas ou tratados como indivíduos improdutivos. São cidadãos em processo de formação, responsáveis por construir conhecimentos, questionar realidades e contribuir para as transformações necessárias à sociedade.
É especialmente preocupante que manifestações dessa natureza procurem transformar divergências políticas em instrumentos de desqualificação moral e social. O exercício da democracia pressupõe o respeito à pluralidade de ideias, à liberdade de expressão e à dignidade humana, princípios assegurados pela Constituição Federal de 1988.
A liberdade de expressão é um direito fundamental, mas não deve ser confundida com uma autorização para disseminar preconceitos, estigmatizar categorias profissionais ou desrespeitar pessoas em razão de suas escolhas políticas, culturais e intelectuais.
Discordar é legítimo. Desrespeitar não pode ser naturalizado.
Reafirmamos, portanto, nossa solidariedade à classe artística, à comunidade estudantil e a todos aqueles que foram atingidos pelas declarações. Defendemos um debate público pautado pelo respeito, pela responsabilidade e pelo reconhecimento da importância de cada segmento social.
A democracia se fortalece com o diálogo, a educação, a cultura e o respeito — jamais com a desqualificação de quem pensa diferente.
Fonte: g1 Ba

